Mais de meio milhão de crianças e jovens retomaram o ano letivo na Faixa de Gaza enfrentando um cenário de devastação generalizada. O retorno às atividades mobilizou cerca de 541 mil estudantes, que agora tentam manter a rotina escolar em salas danificadas, sem carteiras, livros ou equipamentos elementares, após um longo período de paralisação provocado pelo conflito entre Israel e o Hamas.
Rotina improvisada e ausência de estrutura básica
A retomada das aulas exigiu adaptações extremas por parte de professores e responsáveis. Em localidades como Khan Yunis e Nuseirat, os estudantes foram recebidos em tendas com baixa ventilação ou diretamente sobre tapetes estendidos no solo de edificações atingidas pela guerra. Relatos de alunos apontam que muitos estavam afastados dos estudos formais havia três anos, enfrentando a perda de colegas, a escassez de calçados adequados e a alta nos preços de cadernos e lápis.
O formato das aulas também precisou ser reorganizado. Antes do início das hostilidades, os alunos cumpriam jornadas diárias de seis horas letivas. Sob as novas condições, o cronograma foi reduzido para turnos de três horas em dias alternados, como tentativa de contornar a sobrecarga dos espaços que ainda permanecem de pé.
Impacto humano e escolas fora de operação
A infraestrutura de ensino da região foi profundamente abalada. Estimativas das autoridades locais de educação apontam que mais de 85% dos prédios escolares públicos encontram-se inoperantes. Muitas unidades foram completamente destruídas, enquanto outras permanecem interditadas por estarem próximas a zonas restritas delimitadas durante os combates.
Além das perdas materiais, o custo humano para a comunidade acadêmica foi devastador. Os números divulgados indicam que aproximadamente 22 mil estudantes e mais de 770 profissionais da área da educação — incluindo 532 professores — morreram ao longo dos bombardeios e confrontos.
Medo durante o trajeto e processo de recuperação
A segurança permanece como a principal preocupação dos pais no envio dos filhos aos centros educacionais. Sem transporte regular garantido e com o risco persistente de disparos e estilhaços nos percursos a pé, famílias relatam apreensão diária quanto à integridade física das crianças.
Representantes da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) reforçam que a reabilitação do sistema educacional será lenta e progressiva. Boa parte dos edifícios ainda intactos abriga milhares de famílias deslocadas que não têm para onde ir, fazendo com que a recuperação física dos espaços dependa de soluções humanitárias que garantam moradia digna aos desabrigados antes da reintegração total das salas de aula.






